O verme sem boca que ajudou a ciência a descobrir um “plástico” que existe na natureza há milhões de anos
Muito antes de os humanos inventarem os plásticos biodegradáveis, a natureza já tinha o seu próprio. Uma descoberta recente do Instituto Max Planck de Microbiologia Marinha, na Alemanha, revelou que diversos animais — de vermes marinhos a minhocas de jardim — vêm se alimentando desse “bioplástico natural” há centenas de milhões de anos, sem que a ciência soubesse disso.
Tudo começou com um personagem improvável: um verminho marinho de cerca de 2 centímetros chamado Olavius algarvensis. Ele é tão dependente das bactérias que vivem em seu corpo para se alimentar e eliminar resíduos que, ao longo da evolução, simplesmente perdeu o sistema digestivo e o sistema excretor. Sua aparência esbranquiçada vem justamente dessa densa camada de bactérias que cobre sua pele — bactérias essas repletas de uma substância chamada PHA (poli-hidroxialcanoatos), o “plástico” produzido naturalmente por micro-organismos como reserva de energia.
Até então, os cientistas acreditavam que só os próprios micro-organismos conseguiam quebrar e digerir esse composto. Mas, ao estudar esse verme peculiar, os pesquisadores descobriram algo inesperado: animais de nove grupos diferentes — incluindo vermes marinhos, estrelas-do-mar, minhocas e colêmbolos (pequenos insetos de solo) — possuem enzimas capazes de degradar esses PHAs.
Segundo Maggie Sogin, uma das autoras principais do estudo, isso muda completamente a forma como se entende quem consegue acessar essas reservas de carbono produzidas por micro-organismos. Na visão dela, é bem provável que os animais já estejam se alimentando desse bioplástico natural há centenas de milhões de anos — só que a ciência está descobrindo isso agora.
A descoberta, publicada na revista científica Nature Ecology & Evolution, também tem um lado interessante para os dias de hoje: os PHAs vêm ganhando espaço como alternativa biodegradável aos plásticos derivados de petróleo, justamente por poderem ser produzidos e decompostos por processos biológicos. Agora, os cientistas sabem que não são só os micro-organismos que participam dessa reciclagem natural — os animais também fazem parte dela.
Ainda não se sabe o quão comum esse processo é nos ecossistemas naturais nem o quanto ele contribui para o ciclo global do carbono. Mas a descoberta já abre uma nova forma de olhar para as relações entre micro-organismos e animais — e reforça como estudar criaturas aparentemente estranhas, como um verme sem boca, pode revelar processos biológicos escondidos há milhões de anos.