O tubarão “preguiçoso” que anda fora d’água e intriga cientistas na Oceania
Nas águas rasas da Papua-Nova Guiné, moradores locais já conheciam há muito tempo um peixe estranho, capaz de se arrastar por cima dos recifes com boa parte do corpo fora d’água. Eles o chamavam de kadedekedewa — algo como “tubarão-preguiça” ou “tubarão-cão” — por causa do jeito bamboleante de se locomover. O que ninguém sabia é que esse animal familiar aos pescadores da região era, na verdade, uma espécie completamente nova para a ciência.
A descoberta oficial aconteceu durante expedições de mergulho noturno realizadas entre 2023 e 2025 na Baía de Milne, no sudeste do país. A equipe, liderada pela pesquisadora Christine Dudgeon, da Universidade de Sunshine Coast, na Austrália, estava estudando tubarões-epaulette — parentes já conhecidos por essa curiosa habilidade de “andar” — quando um exemplar chamou a atenção por ter um padrão de cores diferente de tudo que já havia sido catalogado: uma coloração marrom com listras brancas simétricas, bem distinta das manchas em estilo leopardo comuns na família.
Ao longo de três noites de busca, os pesquisadores encontraram 12 indivíduos com o mesmo padrão exótico. Só depois, com análises genéticas feitas em laboratórios na Austrália, foi possível confirmar: tratava-se mesmo de uma espécie inédita, batizada de Hemiscyllium dudgeonae — o “tubarão-andante de Dudgeon”. É apenas a décima espécie conhecida do gênero, e a primeira descrita desde 2013.
Com cerca de 70 a 80 centímetros de comprimento, o animal usa as nadadeiras peitorais e pélvicas quase como se fossem pernas, o que permite explorar recifes rasos, se espremer em fendas apertadas e caçar em locais inacessíveis para predadores maiores. Mais impressionante ainda: essa espécie consegue sobreviver por curtos períodos completamente fora d’água — uma adaptação rara entre os tubarões.
A descoberta também trouxe uma reviravolta científica: até então, acreditava-se que cada espécie de tubarão-andante ocupava territórios bem delimitados, separados por barreiras naturais como rios e trechos profundos do oceano. A nova descoberta sugere que essas áreas podem, na verdade, se sobrepor no leste da Papua-Nova Guiné — obrigando os cientistas a repensar parte do que sabiam sobre a distribuição geográfica desses animais.
A boa notícia vem acompanhada de preocupação: por viver em uma área extremamente restrita, o tubarão-andante de Dudgeon já é considerado vulnerável à degradação de habitat, à pesca predatória e às mudanças climáticas. A equipe pretende retornar à região em outubro para coletar mais dados e ajudar a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) a avaliar formalmente o risco de extinção da espécie.