O cágado brasileiro tão raro que uma reserva de proteção nasceu por causa dele
Em uma faixa restrita da Mata Atlântica que vai do Rio de Janeiro ao sul do Espírito Santo, vive um dos quelônios mais ameaçados do planeta — e a maioria dos brasileiros nunca ouviu falar dele. O cágado-do-paraíba (nome científico Ranacephala hogei, também conhecido como cágado-de-hoge ou cágado-de-hogei) é endêmico do Brasil, ou seja, não existe em nenhum outro lugar do mundo, e figura entre as 25 espécies de quelônios de água doce mais ameaçadas do planeta.
O animal é discreto por natureza: prefere áreas de remanso próximas a corredeiras nos rios da bacia do Paraíba do Sul e arredores, onde se alimenta principalmente de frutos de figueiras que caem na água. Justamente por esse comportamento reservado e pela distribuição restrita, encontrar populações da espécie na natureza é um desafio recorrente para pesquisadores — o que torna cada novo registro uma notícia importante para a conservação.
Um desses marcos aconteceu na Floresta Nacional de Pacotuba, no Espírito Santo, onde uma equipe do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios (RAN), ligado ao ICMBio, passou dias monitorando armadilhas aquáticas instaladas às margens do rio Itapemirim. O resultado surpreendeu a própria equipe: além de confirmar a presença do cágado na região, os pesquisadores constataram que fêmeas estavam desovando ali — tornando a unidade a primeira reserva de conservação federal do Brasil com registro de desova da espécie. Uma das fêmeas encontradas apresentava cicatrizes na região da boca e do pescoço, provavelmente causadas por um anzol, reforçando os riscos que pescadores acidentalmente representam para o animal.
A principal ameaça à sobrevivência do cágado-do-paraíba é a destruição das matas ciliares — a vegetação nativa que margeia os rios e é essencial tanto para a proteção do curso d’água quanto para o próprio ciclo de vida da espécie. Diante desse cenário, iniciativas de conservação têm ganhado força: em anos recentes, organizações ambientais criaram reservas específicas para proteger trechos de rio onde vivem algumas das últimas populações conhecidas do animal, com apoio de grupos internacionais dedicados à proteção de quelônios ameaçados.