A nova espécie de arraia gigante que ganhou nome de lenda brasileira e vive no litoral do país
Depois de mais de 15 anos de investigação, cientistas confirmaram a existência de uma terceira espécie de arraia-manta no mundo — e ela tem tudo a ver com o Brasil. Batizada de Mobula yarae, a nova espécie foi identificada por uma equipe liderada por pesquisadoras brasileiras, em parceria com especialistas internacionais, e já foi avistada em diversos pontos do litoral nacional, como Ilha Comprida (SP), Natal (RN) e Fernando de Noronha (PE).
Até essa descoberta, a ciência reconhecia apenas duas espécies de arraia-manta no planeta: a oceânica (Mobula birostris) e a recifal (Mobula alfredi), ambas restritas aos oceanos Índico e Pacífico. A Mobula yarae, por outro lado, habita exclusivamente o Oceano Atlântico, com registros que vão do nordeste dos Estados Unidos até o Sudeste do Brasil.
A pista que deu início a tudo surgiu ainda em 2009, quando a bióloga marinha norte-americana Andrea Marshall — responsável pela descrição da segunda espécie de arraia-manta conhecida no mundo — passou a suspeitar que existia uma terceira variante ainda não catalogada. A confirmação definitiva, porém, só veio décadas depois, puxada por uma equipe brasileira. A pesquisa foi conduzida por Nayara Bucair, doutora pelo Instituto Oceanográfico da USP, que assumiu a liderança do projeto após Andrea sofrer um grave acidente vascular cerebral em 2024 e precisar se afastar temporariamente das atividades científicas.
O nome escolhido para a nova espécie é uma homenagem à Iara, a sereia do folclore brasileiro que, segundo a lenda, seduz pescadores nas águas dos rios. A Mobula yarae impressiona pelo tamanho: pode atingir até 6 metros de largura, e se diferencia das demais arraias-manta por características bem específicas, como dentes presentes apenas na mandíbula inferior (entre 9 e 13 fileiras), manchas na região ventral e um pequeno ferrão calcificado na base da cauda.
Um detalhe chama atenção dos pesquisadores: diferente das outras arraias-manta, que costumam viver em mar aberto, a Mobula yarae tende a permanecer em águas rasas e costeiras — o que facilita observações e pode ajudar bastante nos estudos de conservação da espécie, já classificada como ameaçada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Entre as principais ameaças estão a pesca acidental, a poluição marinha e as colisões com embarcações.