O biólogo que descobriu 6 espécies de plantas novas só de olhar amostras antigas guardadas há anos
Às vezes uma grande descoberta científica não exige uma expedição à selva — basta um olhar atento sobre o que já estava guardado bem debaixo do nariz. Foi o que aconteceu no Herbário Barbosa Rodrigues, em Itajaí, Santa Catarina, onde o biólogo Luís Adriano Funez, curador da instituição, encontrou seis espécies de plantas completamente novas para a ciência — sem sair do prédio.
Tudo começou há cerca de cinco anos, quando Funez, recém-chegado ao cargo, se debruçou sobre o acervo histórico do herbário para revisar as amostras já catalogadas. Um exemplar em especial chamou sua atenção: uma planta do gênero Thaumatocaryon, pertencente à família Boraginaceae, que já estava havia tempos guardada na coleção. O que começou como uma simples descrição rotineira de rotina foi ganhando contornos de investigação científica de verdade, à medida que Funez notava detalhes que não batiam com o que se sabia sobre o gênero.
Até então, a ciência reconhecia apenas três espécies de Thaumatocaryon no mundo. Depois da revisão minuciosa conduzida por Funez, esse número quase triplicou: são, na verdade, nove espécies diferentes — sendo cinco delas totalmente inéditas e uma sexta que precisou ser “reestabelecida” (ou seja, uma espécie que já havia sido descrita no passado, mas caiu em desuso ou foi classificada erroneamente como sinônimo de outra, e agora voltou a ser reconhecida como válida).
O trabalho foi publicado no periódico científico neozelandês Phytotaxa, especializado em taxonomia vegetal, sob o título (em tradução livre) “Uma revisão taxonômica de Thaumatocaryon revela diversidade oculta no sul da América do Sul”. A pesquisa reforça um fenômeno cada vez mais reconhecido na biologia: uma parcela significativa das novas espécies descritas todos os anos não vem de expedições a lugares remotos, mas sim de revisões cuidadosas de acervos de herbários e museus, muitas vezes coletados décadas atrás e nunca completamente estudados. Achados como esse mostram que a curiosidade científica, aplicada com paciência sobre material já disponível, ainda tem muito a revelar sobre a biodiversidade escondida — inclusive em plantas que, literalmente, já estavam catalogadas há anos.