O fóssil de 280 milhões de anos encontrado no Brasil que pode reescrever a história dos anfíbios
Pesquisadores da Universidade Federal do Piauí (UFPI) anunciaram a descoberta de uma espécie de anfíbio fóssil tão incomum que pode mudar o que a ciência sabia sobre a alimentação desse grupo de animais. Batizada de Tanyka amnicola, a espécie viveu há aproximadamente 280 milhões de anos, durante o Período Permiano, muito antes até dos dinossauros surgirem na Terra.
A descoberta é fruto de mais de uma década de trabalho: os primeiros fósseis foram encontrados em 2012, em municípios do Piauí e do Maranhão, e novos materiais continuaram sendo coletados até 2023. Ao longo desses anos, as peças passaram por processos minuciosos de limpeza e análise até que a equipe conseguisse confirmar se tratar de uma espécie inteiramente nova para a ciência. O estudo completo foi publicado em março deste ano na renomada revista científica Proceedings of the Royal Society B.
O que torna a Tanyka amnicola tão especial não é apenas sua idade, mas o formato peculiar de sua mandíbula e a disposição incomum de seus dentes. Até então, praticamente todos os anfíbios conhecidos — tanto os fósseis quanto os atuais, como sapos e salamandras — eram carnívoros, alimentando-se de insetos, pequenos invertebrados ou até outros vertebrados. A nova espécie apresenta as primeiras evidências concretas de um anfíbio fóssil que poderia ter se alimentado de plantas, um hábito alimentar praticamente inédito para o grupo ao longo de toda sua história evolutiva.
Essa descoberta é significativa porque desafia uma ideia bastante consolidada entre os paleontólogos: a de que a herbivoria era extremamente rara ou até inexistente entre os anfíbios primitivos. Encontrar evidências físicas de adaptações dentárias voltadas para o consumo de vegetação abre um precedente importante para repensar a diversidade de dietas que esses animais desenvolveram ao longo de milhões de anos — e reforça, mais uma vez, como o solo brasileiro guarda registros fósseis valiosos para entender a evolução da vida no planeta.